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Ah, minha cesta de Natal do Gigante Amaral...

Milton Neves

29/11/2019 18h05

Já é Natal.

Dezembro chegou.

Para mim, o "Mês da Tristeza".

Por Jesus e pelas pessoas que faltam cada vez mais na mesa de casa de cada membro da família.

E hoje, aqui, nada de futebol, peço licença.

Chega do mega-Flamengo, de Jorge Jesus, de Sampaoli, do Santos FC do coração, do Corinthians e Palmeiras fraquinhos e do Cruzeiro que pode cair pela primeira vez.

E era Cruzeiro a moeda de minha época de menino nos anos 50, quando tia Antônia, minha heroína tia-mãe, fazia um anual e hercúleo esforço para comprar, em 12 prestações, todo final de ano, uma cesta de Natal "Gigante Amaral".

Eram cestas numeradas de um a cinco.

A número um, a mais cara, era a grandona e ela comprava uma.

Quando chegava, meu irmão, eu e três primos nos engalfinhávamos no interior dela retirando, em meio a muita palha, "preciosidades" como saquinhos de nozes, avelãs, amêndoas, latinhas de sardinha, de feijoada e de salsicha, vidros de palmito e azeitona, além de um litro de vinho de Andradas e três garrafinhas de guaraná Caçulinha da Antarctica.

Eram diamantes, pepitas de ouro ou esmeraldas na visão de crianças deslumbradas e carentes.

E brigávamos para ver com quem ficava o boneco de plástico "Gigante Amaral".

O boneco da loja "Gigante Amaral, tão disputado em minha casa nas décadas de 1950 e de 1960

E assim foi lá por 1954, 1955, 1956, 1957, 1958, 1959, 1960, 1961, 1962…

Todo Natal tinha a cesta número um e a gente não via a hora da chegada daquele baú de felicidade, bem grandão.

Mas, professora primária em Muzambinho, Monte Belo e Guaxupé, e cuidando da vó Beatriz, de minha mãe Carmen, viúva, e de tantas crianças, minha tia foi se apertando também por força do crescimento dos sobrinhos e, consequentemente, das despesas.

Primeiro ela cortou a assinatura da revista O Cruzeiro, depois o bujão de gás foi trocado pela lenha e passou também a viver de "letras no banco".

Ou seja, de empréstimos no Banco de Crédito Real, além de mandar "marcar na caderneta" no açougue do Roque, na venda do Zú e do Tunico e no Bazar Castro de Dona Netinha.

E logo chegou a vez de ser sacrificada nossa cesta de Natal "Gigante Amaral".

Ao invés da número um, ela passou a comprar a número dois.

Era grande também e a gente nem notou.

Mas quando veio a número três no ano seguinte, ficamos tristes.

E mais ainda na chegada da número quatro e finalmente da número cinco, minúscula.

Só que o par de meias jamais falhou como presente de Natal para cada um de nós, mas com a cesta do "Gigante Amaral" virando saudade.

E tia Antônia, coitada, pediu desculpas pela falta de dinheiro, imaginem.

Ela tinha acabado de vender o fundo da horta para o Silvestrinho e para a mãe do Chiquinho do Zé Uria para cirurgia mamária em São Paulo, para a retirada de um câncer.

Uma tragédia!

Tudo em dezembro.

Mas tia Antônia ainda viveu muitos anos até 4 de junho de 2015, sempre preocupada se os meninos "estavam bem colocados ou não".

Uma santa.

Deus te pague, tia, aí no céu.

E Feliz Natal para todo mundo, gigantes brasileiros!

Antônia Carlos Fernandes, tia de Milton Neves, ao lado do sobrinho-neto Fábio Lucas e da sobrinha-bisneta Giulia

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Sobre o autor

Milton Neves é jornalista profissional diplomado, publicitário, empresário, apresentador esportivo de rádio e TV, pioneiro em site esportivo no Brasil, 1º âncora esportivo de mídia eletrônica do país, palestrante gratuito de Faculdades e Universidades, escrivão de polícia aposentado em classe especial, pecuarista, cafeicultor e é empresário também no ramo imobiliário.

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